Strelok bebe mais um copo de vodka enquanto aperta a ponta fumegante do cigarro lentamente no cinzeiro como se quisesse sentir as brasas morrerem. Ele então larga o cigarro fumado pela metade no cinzeiro transparente onde outros dois cigarros lançam seus ultimos suspiros, levanta-se pegando o velho fuzil que descançava ao canto da mesa, cambaleia lentamente como o velho ucraniano embriagado que é, até chegar à cama, larga seu fuzil ao chão como se já não aguentasse mais seu peso, e, de fato, ele já não está mais consciente quando acerta o colchão.
A noite fará dele uma criança, que pela manhã irá chorar com uma bela ressaca, e amaldiçoará mais uma vez, sua milésima noite de bebedeira e fumo descontrolado.
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
Uma criança e a noite
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Crônica
terça-feira, 9 de outubro de 2012
Dinosauria, Nós
Nascidos como isso
Adentro isso
Enquanto as caras de giz sorriem
Enquanto a Srª Morte ri
Enquanto os elevadores quebram
Enquanto cenários políticos dissolvem
Enquanto o empacotador do supermercado ganha um diploma universitário
Enquanto peixes oleosos cospem fora suas presas oleosas
Enquanto o sol é mascarado
Nós somos
Nascidos como isso
Adentro isso
Adentro essas guerras cuidadosamente loucas
Adentro a visão de janelas de fábricas quebradas de vazio
Adentro bares onde as pessoas não mais conversam umas com as outras
Adentro trocas de soco que acabam como tiroteios e esfaqueamentos
Nascidos adentro isso
Adentro hospitais que são tão caros que é mais barato morrer
Adentro advogados que cobram tanto que é mais barato declarar culpa
Adentro um país onde as cadeias estão cheias e os hospícios fechados
Adentro um lugar onde as massas promovem idiotas a heróis ricos
Nascidos adentro isso
Andando e vivendo através disso
Morrendo por causa disso
Emudecidos por causa disso
Castrados
Depravados
Deserdados
Por causa disso
Enganados por isso
Usados por isso
Emputecidos por isso
Tornados loucos e doentes por isso
Tornados violentos
Tornados desumanos
Por isso
O coração enegrecido
Os dedos se estendem para a garganta
A arma
A faca
A bomba
Os dedos se estendem em direção a um deus irresponsivo
Os dedos se estendem para a garrafa
A pílula
A pólvora
Nós somos nascidos adentro essa lamentável mortalidade
Nós somos nascidos adentro um governo há 60 anos em dívida
Que logo será incapaz de pagar até mesmo os juros dessa dívida
E os bancos irão queimar
Dinheiro será inútil
Haverá assassinato livre e impune nas ruas
Serão armas e quadrilhas nômades
Terra será inútil
Comida será um rendimento decrescente
Força nuclear será tomada pela multidão
Explosões irão continuamente sacudir a Terra
Homens-robôs radioativos irão espreitar uns aos outros
Os ricos e os escolhidos irão assistir de plataformas espaciais
O Inferno de Dante se fará parecer com um parque de diversões infantil
O Sol não será visto e será sempre noite
Árvores irão morrer
Toda a vegetação irá morrer
Homens radioativos comerão a carne de homens radioativos
O mar será envenenado
Os lagos e rios irão sumir
Chuva será o novo ouro
Os corpos em apodrecimento de homens e animais irão feder no vento escuro
Os últimos poucos sobreviventes serão tomados por novas e terríveis doenças
E as plataformas espaciais serão destruídas pelo desgaste
O esgotamento dos suprimentos
O efeito natural do decaimento geral
E haverá o mais bonito silêncio jamais ouvido
Nascido fora disso.
O Sol ainda escondido
aguarda o próximo capítulo.
Charles Bukowski
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Bukowski
Finos como papel
"Somos finos como papel. Existimos por acaso entre as porcentagens, temporariamente. E esta é a melhor e a pior parte, o fator temporal. E não há nada que se possa fazer sobre isso. Você pode sentar no topo de uma montanha e meditar por décadas e nada vai mudar. Você pode mudar a si mesmo para ser aceitável, mas talvez isso também esteja errado. Talvez pensemos demais. Sinta mais, pense menos."
Charles Bukowski
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Bukowski
A Presa na Névoa
Um dia como outro qualquer, a neve, a névoa, o grande Sol que já quase se esconde atrás de seu manto negro, ah, minha amada tundra, fria e mórbida tundra, que apesar de mórbida me mantem vivo com tanta vida. É mais um dia de caça, de correria, de olá à morte e de festejo à vida.
A névoa está mais densa esta noite, tanto que mal consigo ver a minha frente. O ar parece bem mais denso e por mais que já tenha anos de caça, anos dessa vida dura e compensadora, canso-me estranhamente mais rápido. O que é isso? O que há logo ali em frente? É minha presa! Minha presa para está noite! Afogarei-me na carne, nutrientes, vida, meu alimento, o que me manterá forte, o meu motivo, o porquê de eu ser o predador que sou.
Mas o que é isso que vejo em minha frente? Que diabos de presa será essa? Ele se mantêm de pé diante de mim. Não, é uma fêmea, e ela se mantêm inatingível, inabalável bem na minha frente. Não tem medo de mim? O que diabos há de errado com tais olhos? São tão vazios, onde está a vida? Que sentimento frio e tristonho é este que sinto? Estou sendo desarmado por tais olhos, olhos que desarmam. O ar a minha volta é tão denso que mal consigo respirar. Quero atacá-la! Chega desse sentimento de impotência, ela é só mais uma presa! Uma presa escondida na névoa! Quero rasgar de seu corpo cada pedaço de carne, cada fibra, sentir seu gosto doce em minha boca, quero regozijar-me de sua carne, embebedar-me de seu sangue, quero fazê-la presente em meu ser eternamente, fazer de mim, um só com ela. Absorvê-la em todo o meu ser.
Esses olhos não me deixam mover. Passam-me tanta tristeza, tanto vazio, tanto pecado e tanta dor. Passam-me uma angustia, uma vontade de procurar, uma sede por descobrir. É como um eu que nunca fui, um eu preso a um mundo de farsa, um eu cansado e prestes a desistir. É como um espelho frio e destorcido posto bem a minha frente. Vejo-me nela, e isso me amedronta, olhos tão lindos e ao mesmo tempo tão vazios. Quero salvá-la, entregar-me a ela, deixar que me absorva, deixar que regozije-se de minha carne, embriague-se de meu sangue, quero fazer-me presente em seu ser eternamente, fazer dela, um só comigo. Deixar ser absorvido por todo seu ser... mas ela se foi.
Olho-me no cintilante e reflexivo espelho d'água de uma corrente incongelável. Eu vejo a Lua, eu vejo o céu, eu vejo um lobo.
Eu sou um lobo.
E esta agora é somente mais uma noite qualquer de caça. Oh, tundra, amada tundra, como me sinto vazio.
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Que diabos...
Eu queria saber que diabos há de errado comigo. Hoje eu deitei e encostei a cabeça em um travesseiro por um momento, precisava recuperar minhas costas daquela dor insuportável que sentia, quando, de repente, centenas de pensamentos invadiram a minha mente como as chamas de Nero invadiram Roma. E eu estava lúcido. Percebi que minha vida é um ciclo vicioso de merda, do qual não posso fugir. É como estar até o pescoço em uma enorme piscina de bosta da qual o quanto mais você se agita, mais afunda. O que há de errado comigo? Por que não consigo me livrar disso? Percebi que por mais que tente, não controlo a minha vida, sou um mero espectador dos acontecimentos narrados nela, quero tomar as rédias!
Mas o que fazer? Que diabos de mente perplexa é esta? Ela não é minha, ou é? Cadê aquele garoto que só queria brincar na rua, brincar de lego, jogar video-game, que odiava ler e estudar? Cadê aquele garoto que não entendia o significado da palavra filosofia? Onde diabos eu estou? Perguntas e mais perguntas, e não estou as fazendo a ninguém, estão presas na minha cabeça, devassa cabeça, minha, minha cabeça, que aprisiona ideais nefastas, pensamentos cruéis do que sou ou serei.
Mas eu sou o que sou, e o sou de forma passiva. Não forço ser quem sou por mais que pareça, minha forma forçada nada mais é que a minha forma passiva de o ser. Percebi que tudo o que eu falo, cada palavra, gesto, olhar, ação que tomo como meus, são calculados como se fossem cenas de algum filme ou peça de teatro. Por que sou tão dramático assim? É como se fosse tudo forçado, como se eu quisesse ser perfeito, um drama que não possa ser esquecido. Essa minha vontade de perfeição é um defeito, defeito esse que faz parte do meu modo de ser, portanto, esse sou eu, não de uma forma forçada, mas simples, intacta, quieta. Eu sou esse ser forçado, desengonçado, calculado, pseudo-perfeccionista, simplório e ao mesmo tempo megalômano. O que eu sou?
Sou somente mais um ser humano.
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Reflexão
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
A Longa Jornada
Enquanto ele acordava, tudo a sua volta, cada simples coisa, era uma verdade absoluta. Não haviam sinai de uma presença passada, nada até onde ele poderia chegar ou ver.
Sua vontade de aprender cresceu mais, enquanto ele se esforçava para se levantar percebia que o mundo fora gerado, feito, criado, construído, bloco por bloco, como se alguém, de alguma maneira, os tivesse posto, um por um, um após o outro, incansavelmente, das profundezas até o próprio céu. Ele sabia que não estava sonhando. ele mesmo não sabia exatamente o significado da palavra sonhar, e, até onde ele sabia, nunca esteve vivo para saber a verdade. Não, ele estava vivo, vivo como nunca esteve.
Ele se aproximou de uma árvore cujas extremidades eram todas quadradas, como as pedras, a terra, as folhas, e até mesmo a água e o ar, que não podia ser visto, mas sentido, pelo seu corpo, que já não o espantando, também era quadrado. Aquilo não o surpreendia mais.
Ele precisava de abrigo, então pensou, e novamente ele estava surpreso. Não por sua habilidade incontestável de adquirir recursos através de socos, mas pela própria habilidade de pensar. Ele existia.
Por existir, pensar, e uma incomum habilidade com as mãos, o mundo era um parque de diversões ante seus olhos. As possibilidades eram infinitas. Então ele prosseguiu socando árvores, terra, plantas e tudo o que podia alcançar com suas ligeiras e quadradas mãos. O sol, um grande bloco branco no céu, aproximava-se da parte mais alta, o centro do veludo azul e pálido, acima de sua cabeça quadrada. Já era meio dia. Tão rápido.
E o que acontecerá quando o Sol tocar o outro lado do veludo?
Então haveria uma noite?
Melhor construir abrigo, pensou.
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