terça-feira, 9 de outubro de 2012
A Presa na Névoa
Um dia como outro qualquer, a neve, a névoa, o grande Sol que já quase se esconde atrás de seu manto negro, ah, minha amada tundra, fria e mórbida tundra, que apesar de mórbida me mantem vivo com tanta vida. É mais um dia de caça, de correria, de olá à morte e de festejo à vida.
A névoa está mais densa esta noite, tanto que mal consigo ver a minha frente. O ar parece bem mais denso e por mais que já tenha anos de caça, anos dessa vida dura e compensadora, canso-me estranhamente mais rápido. O que é isso? O que há logo ali em frente? É minha presa! Minha presa para está noite! Afogarei-me na carne, nutrientes, vida, meu alimento, o que me manterá forte, o meu motivo, o porquê de eu ser o predador que sou.
Mas o que é isso que vejo em minha frente? Que diabos de presa será essa? Ele se mantêm de pé diante de mim. Não, é uma fêmea, e ela se mantêm inatingível, inabalável bem na minha frente. Não tem medo de mim? O que diabos há de errado com tais olhos? São tão vazios, onde está a vida? Que sentimento frio e tristonho é este que sinto? Estou sendo desarmado por tais olhos, olhos que desarmam. O ar a minha volta é tão denso que mal consigo respirar. Quero atacá-la! Chega desse sentimento de impotência, ela é só mais uma presa! Uma presa escondida na névoa! Quero rasgar de seu corpo cada pedaço de carne, cada fibra, sentir seu gosto doce em minha boca, quero regozijar-me de sua carne, embebedar-me de seu sangue, quero fazê-la presente em meu ser eternamente, fazer de mim, um só com ela. Absorvê-la em todo o meu ser.
Esses olhos não me deixam mover. Passam-me tanta tristeza, tanto vazio, tanto pecado e tanta dor. Passam-me uma angustia, uma vontade de procurar, uma sede por descobrir. É como um eu que nunca fui, um eu preso a um mundo de farsa, um eu cansado e prestes a desistir. É como um espelho frio e destorcido posto bem a minha frente. Vejo-me nela, e isso me amedronta, olhos tão lindos e ao mesmo tempo tão vazios. Quero salvá-la, entregar-me a ela, deixar que me absorva, deixar que regozije-se de minha carne, embriague-se de meu sangue, quero fazer-me presente em seu ser eternamente, fazer dela, um só comigo. Deixar ser absorvido por todo seu ser... mas ela se foi.
Olho-me no cintilante e reflexivo espelho d'água de uma corrente incongelável. Eu vejo a Lua, eu vejo o céu, eu vejo um lobo.
Eu sou um lobo.
E esta agora é somente mais uma noite qualquer de caça. Oh, tundra, amada tundra, como me sinto vazio.
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